A corrida eleitoral ao Palácio Paiaguás escancarou um abismo profundo entre os acordos firmados pelas cúpulas partidárias em Cuiabá e a realidade política dos municípios de Mato Grosso. Em uma demonstração avassaladora de capilaridade e força regional, o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) garantiu a assinatura de 133 dos 142 prefeitos do Estado em um manifesto conjunto de apoio à sua reeleição. O dado significa que quase 94% dos gestores municipais decidiram marchar com a atual gestão, impondo um severo isolamento territorial à coligação “Coração da Gente”, encabeçada pelo senador Wellington Fagundes (PL).
O racha nas bases de apoio de Wellington atinge o cerne de sua própria aliança, já que prefeitos filiados ao PL e ao MDB ignoraram as diretrizes das executivas estaduais para subir no palanque de Pivetta. Esse descompasso é alimentado por uma forte insatisfação interna com a própria engenharia da coligação. Forças políticas de peso, dentro de cada sigla, falam abertamente sobre o racha e as possíveis consequências.
O deputado estadual Gilberto Cattani (PL) admitiu que a união com o MDB — costurada para abrigar a candidatura de Janaina Riva ao Senado — “desagradou profundamente a militância da direita conservadora, gerando consequências diretas e afastando prefeitos que preferiram o pragmatismo da parceria com a atual gestão estadual”.
A contradição entre o papel e as ruas ganha contornos explícitos também no parlamento estadual. Um dos exemplos mais nítidos é o do deputado Dr. João (MDB), que declarou voto e apoio formal à reeleição de Pivetta, a despeito de sua sigla estar oficialmente coligada ao PL. Em um cenário incomum de sobrevivência política, Wellington Fagundes participou do lançamento da campanha do emedebista e dividiu o palco com ele, evidenciando que a chapa majoritária de oposição tenta preservar pontes com candidatos proporcionais competitivos, mesmo quando eles apoiam abertamente o atual governador.
Estrategistas apontam que o controle de 94% das prefeituras confere a Otaviano Pivetta uma vantagem logística e simbólica crucial para o pleito. Embora Cattani pondere que prefeitos não detêm a transferência automática de votos em uma era de eleitores hiperconectados, “os chefes de Executivo comandam secretarias, coordenam vereadores e lideram comunidades, ampliando a capacidade de mobilização em cada canto do território mato-grossense”.
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