Pouco tempo após registrarem o primeiro movimento de queda em mais de um mês, os postos de combustíveis da Baixada Cuiabana iniciaram uma forte escalada nos preços do etanol hidratado. O litro do biocombustível, que havia recuado para médias de R$ 3,29, passando a 3,77/3,79 na região de Várzea Grande, voltou ao movimento de alta ao exibir a marca de R$ 3,99 em diversos estabelecimentos tanto da capital quanto do município vizinho. A rápida majoração surpreendeu os consumidores locais, eliminando a margem de economia que havia estimulado o movimento nas bombas semanas atrás. Antes da alta, alguns postos ainda conseguiam manter o litro na casa dos R$ 3,52.
O repique nos preços de revenda ocorre em um cenário produtivo altamente contraditório e intrigante para o mercado. Mato Grosso acaba de finalizar a colheita de uma safra recorde de milho – com mais de 57,39 milhões de toneladas – e mantém as usinas em plena atividade para a moagem da cana-de-açúcar — cuja janela de processamento estende-se até meados de outubro. Em termos técnicos, a ampla oferta e a disponibilidade imediata das duas principais matérias-primas do biocombustível deveriam pressionar os valores para baixo, mas o comportamento das distribuidoras e o realinhamento das margens dos postos ditaram o ritmo de alta na ponta final.
Hércules de Assis, farmacêutico, se disse surpreso com a alta. “Eu passei ontem à noite (segunda-feira) e vi o litro do etanol marcando R$ 3,99. Achei que era algo pontual aqui do posto ou da região. Mas aí hoje cedo vi que a alta é geral. Consegui abastecer a R$ 3,52 em um posto da Prainha, antes do morro do Seminário. Mas pela diferença de valores também não arrisquei. Coloquei R$ 50 apenas até o psicológico se acostumar aos R$ 3,99”.
Ruan Lopes, vendedor no Centro de Cuiabá, disse que há anos deixou o carro encostado em casa e só usa a moto. “O carro é para emergências agora”, brinca. Mas ele explica que automóvel é transporte de final de semana para família. No dia-a-dia é a moto que faz o vai-e-vem. “Além do valor inexplicável do etanol na nossa região esse trânsito tá um nó, cada dia pior, cada dia a gente fica mais parado e o combustível queimando do mesmo jeito. Já tô pensando em trocar essa Bis por uma motinha elétrica”.
NÃO PERDOA NEM ELEIÇÃO – Além dos fatores de mercado e de logística da cadeia do agronegócio, o encarecimento do combustível ganha repercussão direta nos bastidores da corrida eleitoral de 2026. A oscilação repentina do etanol passa a ser capitalizada politicamente pelos blocos partidários, transformando o preço do combustível em vidraça e munição nos debates sobre o custo de vida regional, a carga tributária do Estado e a eficiência da fiscalização sobre o alinhamento de preços na bomba.
A oscilação do mercado ao longo do ano confirma a forte instabilidade do setor de combustíveis no Estado. Enquanto o mês de junho de 2026 se manteve como o período de preços mais baixos — quando o biocombustível chegou a ser comercializado na casa de R$ 3,17 —, o encerramento de agosto joga o valor para patamares superiores à média de R$ 3,74 registrada no fechamento de julho pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
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