A história de Eduardo Botelho começou na roça, em Nossa Senhora do Livramento, e passou pelas feiras e pelas ruas de Cuiabá. Filho de uma família simples, ele aprendeu desde cedo o valor do trabalho, da responsabilidade e dos estudos.
Na infância, a família vivia da agricultura de subsistência. Plantava e criava animais para garantir o próprio sustento. O que sobrava era vendido.
“Nós viemos da roça. Meu pai era sitiante e vivia da agricultura de subsistência. Era aquela época em que a família produzia praticamente tudo para comer: feijão, arroz, criava porco e galinha. No início dos anos 1960, muitas famílias viviam dessa forma por aqui. O pouco que sobrava da produção era vendido”, relembra Botelho.
Quando chegou a hora de estudar, a família precisou enfrentar outra dificuldade. Como não havia condições de manter os filhos na cidade, Botelho deixou a casa dos pais e foi morar com parentes em Cuiabá.
“Nós éramos muito pobres. Para continuar os estudos, precisávamos ficar na casa de parentes. Eu vim morar com um tio que era lanterninha de cinema em Cuiabá. Ele tinha nove filhos e morava perto da Prainha, quase onde ela chega ao Rio Cuiabá. Era uma vida simples e com muitas limitações”, conta.
Trabalho desde cedo
Em Cuiabá, Botelho descobriu cedo que estudar também significava ajudar em casa.
“Quando cheguei, meu tio deixou claro: ‘Aqui você vai estudar, mas também precisa ajudar, porque senão a gente não sobrevive’. Ele trabalhava à noite como lanterninha e eu ficava na frente do cinema com um tabuleiro, vendendo bala, amendoim e torrada. Eu tinha oito ou nove anos”, lembra.
Depois, veio a experiência nas feiras de Cuiabá. Junto com os irmãos, ele ajudava a vender os produtos que o pai trazia do sítio, como mandioca, banana e melancia.
“Nós montamos uma pequena banca para vender verduras. Meu pai trazia mandioca, banana e melancia de Livramento. Muitas vezes, a gente dormia na própria feira, em cima das bananas e das melancias. Foi ali que aprendi muito sobre comunicação e convivência com as pessoas. A feira é o verdadeiro marketing de rua”, diz.
Foi também nesse período que o jeito cuiabano de falar e de se relacionar com as pessoas ficou ainda mais forte.
“Foi nesse ambiente que meu sotaque cuiabano se fortaleceu e nunca saiu de mim”, completa.
Mas a vida nas ruas também trouxe momentos difíceis. Ainda criança, Botelho passou por situações de humilhação e violência.
“A vida de quem ganha o sustento na rua é dura. Uma vez, eu vendia refresco em um isopor em frente ao Dutra, perto da cadeia pública. Alguns policiais me chamaram e eu pensei que queriam comprar. Quando me aproximei, um deles pegou um fio grosso e começou a me bater, enquanto os outros riam. Foi uma situação que nunca esqueci. Passei por outras ainda piores, que prefiro não contar”, relatou ao MT Econômico.
A força da mãe e a importância dos estudos
Dentro de casa, a principal incentivadora dos estudos foi sua mãe. Mesmo com pouco dinheiro, ela acreditava que a educação poderia abrir novos caminhos para os filhos.
“Minha mãe dizia que precisava encontrar uma forma de nos colocar na escola. Meu pai era um homem simples e trabalhador e perguntava: ‘Para quê? Se aprenderem a fazer roça, já está bom’. Mas minha mãe não aceitava isso. Ela dizia: ‘Eles têm que estudar’. Graças à persistência dela, todos nós conseguimos nos formar”, conta Botelho.
A mãe também sonhava em ver o filho formado em Medicina. Botelho abraçou esse sonho por um tempo, mas as dificuldades financeiras tornavam impossível estudar fora de Mato Grosso.
“Eu queria ser médico porque minha mãe dizia: ‘Você tem que ser médico para atender todo mundo de graça’. Só que, em 1977, não havia curso de Medicina aqui. Eu não tinha dinheiro nem para pagar o ônibus. Muitas vezes, vinha do Coxipó a pé ou de bicicleta. Como eu poderia sair do Estado para fazer faculdade? Não havia condições”, explica.
Foi então que escolheu Engenharia. A facilidade com números e o gosto pela Matemática ajudaram na decisão.
Professor, engenheiro e empresário
A educação abriu novos caminhos. Botelho fez cursos técnicos de Mecânica de Automóveis e de Estradas, formou-se em Matemática e, depois, em Engenharia Elétrica.
Também trabalhou como professor, mecânico, engenheiro e gerente da antiga Cemat.
“Passei 20 anos em sala de aula ensinando Matemática. Também atuei em oficina mecânica, na antiga Grecovel Veículos, e fui engenheiro e gerente da antiga Cemat. Minha trajetória profissional começou na roça e passou pela feira, pela rua, pela oficina, pelo magistério e pela engenharia. Cada etapa acrescentou algo à minha experiência de vida”, afirma.
A experiência no ramo de energia elétrica também levou Botelho a buscar novos caminhos. Na década de 1980, uma mudança na conjuntura trouxe a possibilidade de perder o trabalho na Cemat.
“Eu estava na Cemat quando houve uma mudança na conjuntura e quase fui demitido. Aquilo me fez pensar: ‘Não posso depender apenas de um trabalho que pode mudar a qualquer momento’. Foi então que comecei a buscar outra fonte de renda”, relembra.
Foi assim que começou sua trajetória empresarial. Primeiro, abriu um restaurante em Diamantino. Depois, criou uma empresa de engenharia.
Com a privatização da Cemat, decidiu deixar esse ramo e passou a se dedicar aos negócios.
“Montei primeiro um restaurante em Diamantino, que teve um bom resultado, e depois abri uma empresa de engenharia. Quando a Cemat foi privatizada, pedi demissão. Também deixei meu cargo efetivo de professor e passei a me dedicar integralmente à iniciativa privada”, conclui.
Da roça às salas de aula, das feiras à engenharia, Botelho construiu sua trajetória passando por diferentes trabalhos e desafios. Para ele, cada experiência teve um papel importante na pessoa e no profissional que se tornou.