Os produtores rurais de Mato Grosso devem manter a cautela e evitar decisões precipitadas diante das notícias sobre a possível formação de um “Super El Niño” para o próximo ciclo produtivo. O alerta é do renomado meteorologista brasileiro Luiz Carlos Molion, que recomenda atenção redobrada ao monitoramento prático das condições do tempo. Segundo o especialista, o fluxo excessivo de informações e projeções meteorológicas sem critérios interpretativos profundos tem gerado um alarmismo desnecessário no setor agropecuário.
Molion ressalta que o atual cenário divulgado em massa pela imprensa e nas redes sociais baseia-se exclusivamente em simulações computadorizadas, e não em uma mudança climática consolidada na natureza. “As informações que estamos vendo são representadas por um modelo de previsão e não necessariamente por um padrão climático estruturado”, ponderou o cientista, evidenciando a distância entre a estimativa matemática e a realidade do campo.
O principal ponto técnico defendido por Luiz Carlos Molion reside no fato de que o aquecimento das águas da superfície do Oceano Pacífico, isoladamente, não possui a capacidade de alterar o regime de precipitações no continente. Para que haja um impacto severo no padrão chuvoso de Mato Grosso, é obrigatório ocorrer o chamado acoplamento físico.
“A água quente do mar não muda a dinâmica da chuva a não ser que ela tenha uma interação direta e contínua com a atmosfera. Nem sempre a circulação dos ventos atmosféricos vai permitir que o vapor d’água suba, se resfrie e se transforme em tempestades. Se a atmosfera não responder ao calor do oceano, o clima continental segue seu curso normal, sem interferências”, detalhou o meteorologista.
SETEMBRO SERÁ DIVISOR DE ÁGUAS PARA AS PREVISÕES – Ainda de acordo com a análise do especialista, qualquer afirmação contundente feita no momento atual carece de sustentação empírica, sendo necessário aguardar a evolução do sistema climático global ao longo das próximas semanas. O período crucial para fechar um prognóstico confiável terá início a partir do dia 20 de setembro. É nessa data que o posicionamento do Sol passa a atuar de forma mais perpendicular sobre o Hemisfério Sul, estimulando a termodinâmica que dá início à estação chuvosa na região central do Brasil.
Molion projeta que, mesmo se houver a confirmação desse acoplamento entre o mar e o ar até o próximo mês, a tendência é de que o impacto real sobre as lavouras mato-grossenses seja brando. “Não se pode cravar nada hoje. Caso a atmosfera responda ao Pacífico na segunda metade de setembro, o reflexo tende a ser pequeno e perfeitamente manejável pelo produtor”, avaliou.
SEGURANÇA HÍDRICA – Como orientação final para mitigar possíveis riscos na condução dos plantios, o meteorologista aconselha os agricultores a focarem o planejamento estratégico em práticas agronômicas defensivas de solo. Em vez de paralisar as atividades por receio das previsões, a recomendação é preparar a terra para reter a umidade com máxima eficiência.
“O produtor precisa se programar e observar o céu sem pânico, pois não há cientista no mundo capaz de cravar o comportamento exato do El Niño neste instante. A principal preocupação técnica deve ser a de estruturar o solo para armazenar água de forma eficiente e utilizar técnicas de manejo que estimulem o aprofundamento do sistema radicular das plantas”, concluiu Luiz Carlos Molion, lembrando que raízes mais profundas são o melhor seguro contra veranicos temporários.
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