O início do ciclo agrícola 2026/27 expõe uma distância severa entre os grandes volumes anunciados pelo governo federal no Plano Agrícola e Pecuário (PAP) e o dinheiro que efetivamente chega às propriedades rurais. Das linhas equalizáveis programadas pelo Tesouro Nacional para subsidiar os juros do produtor, apenas R$ 1,3 bilhão havia sido efetivamente liberado no primeiro mês do ciclo, diante de um total previsto de R$ 97,6 bilhões. “Essa lentidão operacional na largada da safra evidencia o encolhimento do crédito oficial e a falta de compasso da política pública frente ao crescimento e à complexidade do campo”, exclamam produtores que integram a Aprosoja MT.
Sem o suporte tempestivo do crédito controlado, o setor produtivo acelerou a migração para os mecanismos de financiamento privado e para o autofinanciamento. O estoque de Cédulas de Produto Rural (CPRs) atingiu a marca histórica de R$ 580,8 bilhões, sendo que apenas no início do ciclo as novas emissões somaram R$ 37,5 bilhões. No segmento de pequenos e médios agricultores, as ferramentas de mercado assumiram o protagonismo absoluto, respondendo por 66,6% de todo o capital contratado nas principais regiões produtoras, enquanto o custeio convencional subsidiado minguou para escassos 23%.
Essa transição forçada para as fontes de mercado ocorre sob um cenário macroeconômico altamente desfavorável, com a taxa Selic fixada em 14% ao ano. O elevado custo de captação do sistema financeiro convencional faz com que as operações privadas corroam as margens de lucro da atividade. O produtor depara-se com exigências rígidas de garantias e taxas flutuantes próximas aos níveis de juros correntes de mercado, tornando o planejamento financeiro da safra muito mais sensível, arriscado e oneroso a longo prazo.
A deterioração das carteiras de crédito em importantes polos agropecuários reflete a gravidade do momento financeiro atual. Em Mato Grosso, estado que lidera a produção de grãos do país, o saldo problemático das operações rurais atingiu R$ 21,8 bilhões, o que representa uma fatia alarmante de 20,3% de toda a carteira analisada. No custeio da soja, a participação dos bancos com repasses federais despencou de 8,7% para apenas 5,1% nas últimas safras, consolidando as linhas próprias das instituições e o uso de recursos próprios dos produtores como os novos pilares de financiamento da lavoura.
Como reflexo imediato desse estrangulamento financeiro, a tomada de decisão no campo já mudou, resultando em lavouras com menor nível de tecnologia embarcada. Representantes do setor produtivo apontam que os agricultores têm reduzido ou postergado a compra de fertilizantes e corretivos de solo para controlar o risco do caixa.
“É uma decisão financeira que pode trazer como consequência uma redução do potencial produtivo das lavouras. Isso não surgiu agora. É consequência das dificuldades de crédito acumuladas nos últimos anos e que se agravaram nesta safra”, aponta diretor administrativo Associação dos Criadores de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Diego Bertuol.
Clique aqui e receba notícias em tempo real na palma da mão